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Tomar conta de ti.

O cinto do carro vai por baixo da barriga. As calças têm uma cintura elástica. Tomamos cálcio, ferro, iodo, vitaminas antes de deitar. Lavamos a salada até mais não. Viramos o ovo para trás. Andamos de mão dada. Ensinamos que só se anda no verde. Protegemos do sol. Da chuva. Do vento. Damos as melhores frutas, a melhor parte da torrada, olhamos de lado para quem os magoa e até para quem os protege, os vacina, os medica, para quem os educa para além de nós e ouvimos com desdém os seus defeitos que bem reconhecemos.
No momento em que somos pais acciona-se um mecanismo de defesa que é quase primitivo.
É nosso papel aquecer o nosso filho, alimenta-lo, protege-lo de tudo e de todos.
Se cai, se espirra, se se engasga, se está doente. Há um clique que dispara e que nos faz estar lá, ser mais forte, ser pai mesmo quando ainda não nos sentimos assim tão adultos. Ser mais do que somos muitas vezes e superar todas as nossas forças, as forças que vêm de dentro e as que se mostram por fora.
Estamos preparados para a guerra, para o que der e vier, para vencer tudo e todos, para avançar sem medo e pegar num e noutro e ainda noutro ao colo e de repente temos mais braços do que julgávamos. Somos fortes, imbatíveis, capazes de tudo.
Tudo porque quando eles nascem se activa um sentimento de protecção que nos torna pais e que nos faz amar como nada e proteger como o tudo que são. É a partir daquele momento, o nosso grande dever e é incrível como é tão absolutamente instintivo, inato e imediato.
Em casa protegemos as fichas, os cantos das mesas, o armário dos detergentes, os quentes da cozinha, a gaveta das facas e o mundo inteiro é gigante e cheio de riscos que não controlamos e queremos que se mantenham inteiros, com saúde, felizes, completos e vivemos nesta tarefa impossível que é salvá-los do mundo que pode ser duro mas que é tão bom. Salvá-los de tristezas e de desilusões e mostrar-lhes que elas existem e que mesmo assim vale a pena. Que é incrivelmente bom viver.
Esta proteccção dura para sempre. Não é só nos primeiros dias enquanto são frágeis e absolutamente dependentes, não só nos primeiros meses, nem nos primeiros anos. É para sempre.
É para sempre que somos pais e para sempre que os abrigamos na nossa asa mesmo que voem fortes e seguros.
Somos pais para sempre. Em todas as idades, em todos os percursos e em nós viverá para sempre a necessidade imensa de os amparar, quer eles queiram quer não.

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