Há um brilho nos olhos dos meus filhos que me diz que me amam. Que sentem orgulho. Que esperam o melhor de mim. Mas sem grande cobrança.
Há neles uma esperança que os faz acreditar numa espécie de mim herói. Numa espécie de mim invencível, numa espécie de mim, perfeita. Apesar de me reconhecerem as imperfeições.
Não há desilusão.
Eu e o pai somos uns heróis.
É por nós que esperam quando a escola acaba, somos nós que estamos para o banho, o jantar, o deitar. Corremos, brincamos e somos fortes porque os levantamos no ar e os carregamos nas cavalitas e os fazemos rir com piadas tontas e caretas.
Eles são o nosso público mais fácil. Basta-nos pouco para os fazermos felizes. Às vezes basta estar lá.
De manhã chamam por nós e não descansam enquanto não virem a nossa cara. À noite querem-nos se têm medo e somos nós quem os faz sentir seguros. Querem o nosso colo, a nossa mão, o nosso abraço. Pedem o nosso aplauso, o nosso orgulho, o nosso sorriso. A nossa companhia.
E temos pouco tempo para andar com esta capa, com este fato que só eles vêm.
Um dia vamos ser pessoas normais.
Que falham. Que erram. Que vacilam.
Vamos desiludir, desapontar. Mesmo que sejamos iguais ao que somos hoje. Os olhos deles mudam e o filtro vai-se.
Seremos humanos.
Nós vê-los-emos sempre heróis, de armadura. De fato. Capa posta.
Enquanto eles crescem criamos os heróis que temos tempo para ser e damos tudo para que nos vejam assim o máximo de tempo possível, que acumulem orgulho e que lhes chegue para que em adultos nos vejam como homens normais que falham, que tentaram ser exemplo e que os amaram sempre.
Mesmo quando lhes falharam alguns poderes.
O mês passado, quando fizemos 11 anos de casados, e já completamente ciente do resultado, fiz um teste de gravidez e deu positivo. Eram 5h30 da manhã. Mandei uma mensagem à minha médica em pânico porque já tenho 40 anos e desorientada com o resultado ao que me respondeu: "Mariana, que todas as notícias inesperadas sejam de um bebé". Não dormi mais até o António acordar e lhe contar o resultado em lágrimas. Estive os 2 anos seguintes após o nascimento da Luísa com muita vontade de ter um quarto filho. Decidimos no entanto que não iria acontecer e talvez no último ano tenha aceitado que a nossa "conta" estava feita. Não esperávamos mas aconteceu e nunca pensámos em alternativa alguma senão ter este bebé com todas as dificuldades que também considerámos. A casa, o dinheiro, as escolas, a nossa independência, a nossa idade, os riscos envolvidos. A nossa dinâmica estar já tão fluida e natural. Tanta coisa que pesava "contra" nós. Mas a ideia foi cre...
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