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Engoli um sapo

O primeiro dia em que engolimos o primeiro sapo é uma lição de vida. Aqui começa o role de momentos em que enfiamos o saco na cabeça ou a cabeça na areia. É um dia marcado por alguma vergonha em que se disfarça como se pode ou melhor ainda, se mente. Com todos os nossos dentes. 
"Ah sim! Eu sempre disse que a partir do momento em que o bebé nascesse já não teria muito tempo para mim".
Mentira! Eu achei que ia ser exactamente igual e que os bebés só dormem e comem.
Depois há os sapos sociais. Aqueles que dizemos às outras mães antes de sermos mães completamente às escuras.
Mas ele dorme ao teu colo? Coitada!
Sabemos lá o milagre que é dormir com um bebé ao colo.
"Ele pode mexer em tudo? Não te chateia?"
Não. Prefiro que ele me desarrume a vida inteirinha à minha volta se isso significar 5 minutos de pseudo paz.
"Tens ido ao ginásio? Quando for mãe estou lá batida no primeiro mês 《que é para isto ir logo tudo ao sítio》."
Bom para ti. A mim custa-me passar da cama para o sofá e só o faço com um sorriso na cara se estiverem lá plantadas Oreos.
Depois há um sapo que me custa particularmente engolir. O sapo: quando fores mãe vais ver. Quando nascer o segundo vais ver.  Quando forem três vais ver. É um sapo injusto porque na realidade há alturas na vida em que só podemos mesmo imaginar e pormo-nos na pele do outro.
Mas o mais difícil de todos é o sapo interior.
Aquele que não partilhamos, não dizemos a ninguém mas que estabelecemos em nós por facilidade,  por segurança. Por medo. E muitas mas muitas vezes, por ignorância.
Eu tenho vários desses. Que vou engolindo em esforço ou caem-me como bombas e são verdadeiras e incríveis lições de vida.
O maior é de longe a amamentação. O meu percurso a dar de mamar começou completamente às escuras com a minha primeira filha. Cheia de dúvidas e cheia de ouvidos o que claramente prejudicou. O segundo melhorou esta relação não necessariamente porque foi mais tempo mas porque foi muito mais consciente. À terceira tudo fez sentido e só à terceira entendi o verdadeiro sentido das coisas.  (Que injusto para os outros penso às vezes)
"Eu nunca hei de dar de mamar mais do que um ano e chegar ao primeiro ano já é uma loucura. Começa a andar e deixa de fazer sentido".
A amamentação é o maior sapo que já engoli. Porque gozei. Desdenhei. Não compreendi. Achei estranho e esquisito.
E sei que, porque já fui a pessoa que apontou o dedo, que só se compreende vivendo e por isso vivo bem se me apontarem o dedo quando digo que ainda dou de mamar (muito pouco mas dou) à minha filha de 1 ano e 8 meses (como é possível??) e que ela dorme a noite toda, não me despe em público e não me morde como um dia achei que todos os bebés faziam às suas mães.
Este é o sapo que engoli com mais orgulho e que tenho a sorte de ter vivido.
A maternidade é uma oportunidade para viver por inteiro e se hoje der algum conselho é só este: o nosso instinto maternal está lá. Desde o primeiro momento do nosso primeiro filho. Segui-lo torna tudo mais simples, mais natural e com muito mais sentido. Basta não ter medo. Fechar os olhos e ir.

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