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Sobre os programas curriculares e outras realidades

O meu papel de mãe tem que estar ciente de duas coisas (milhões na verdade mas estamos a falar da escola). 

A primeira é que as crianças devem ser crianças e brincar até mais não e a segunda é que é muito melhor passar pela escola sem dificuldades. Dosear as duas coisas não é sempre fácil. Estamos dependentes de sistemas que não podemos controlar, do orçamento que temos para escolher a escola adequada aos nossos filhos e da nossa realidade familiar.

Quando a Leonor entrou no primeiro ano e numa escola nova, a Luísa tinha 1 ano e o Zé Maria 3. Começou a vir para casa com trabalhos de casa. À hora crítica somou-se toda uma logística que me parecia absurda e muito difícil de cumprir. Sozinha com os 3 com todo o que isso já implica, mais trabalhos de casa, a obrigação de parar, de controlar dois filhos pequenos e de apoiar uma terceira (também ela pequena) que ainda não sabia sequer ler.

Falei com a sua professora da altura explicando que seria impossível para nós fazer sempre os trabalhos de casa mesmo que alguns só nos tirassem 5 minutos. E assim foi. Quando dava, a Leonor fazia os trabalhos, na sala e no meio do resto da nossa rotina. Ela não queria ir para um sítio afastado e na realidade eu também não queria que fosse. 

Queria brincar com os irmãos. Estar sem fazer nada. Ter 6 anos. Eu já mal me orientava quanto mais com TPC à mistura. 

Não mudou muito dos 6 para os 7 - até achei o primeiro ano mais ou menos adequado à idade - excepto a responsabilidade que passou a ter ou melhor, a exigência de um programa que não corresponde em nada a uma criança da idade da Leonor. A meu ver. 

Não tem nada a ver com inteligência, tem a ver com maturidade que estes miúdos ainda não têm. A Leonor ainda não se queixou de não conseguir perceber mas talvez tenha sorte com a professora e o método que a escola aplica e a leveza com que tudo tem acontecido na sua aprendizagem. 

No caso da matemática a Leonor está a aprender perímetros, áreas, fracções, casas decimais e medidas de comprimento. Tem 7 anos. A minha intenção como mãe será sempre de querer que eles se safem neste mundo, que se sintam bem consigo mesmos e que sejam o melhor que podem ser. Mas tenho dúvidas deste caminho. Deste sistema.

Todos os dias vejo o dossier dela. Não só por ela mas por mim. O que aprendeu, o que está a dar e acima de tudo como aprende porque o método que a escola dela aplica não tem nada a ver com a maneira como eu aprendi. 

Nunca fui grande aluna e apesar de achar que a escola deva ser o mais leve possível sei que é muito mais simples passar por ela com boas notas e sem dificuldades. É meio caminho andado para retirar as coisas boas, os amigos, a parte divertida e poder aproveitar melhor a infância e a juventude. 

Mas este nível de exigência é normal?  Eu não posso responder porque não sou professora, nem pedopsicóloga nem estudo o comportamento das crianças para além dos meus. Estou presa ao que eu acho ser adequado à sua idade, à sua maturidade e por isso, tudo isto me confunde. 

A Leonor brinca muito. E não tenho a mais pequena dúvida da sua capacidade para entender o quer que seja se lhe for explicado da maneira certa. A minha questão é para quê? 

Lembro-me de me justificarem algumas áreas da matemática com o "um dia ainda vais precisar disto". Ainda estou à espera. Nunca precisei. E mais, aquilo que me fazia falta saber já esqueci. Talvez por ter aprendido cedo demais. 

Estou a dar o exemplo da matemática exactamente como exemplo. Nada contra (aliás tenho tudo contra mas isso é entre mim e ela). Estou a falar do programa. Sei que mudou em 2014 e que se tornou mais exigente. 

Gostava de perceber melhor este assunto para saber se tem a ver com o que já não me lembro, em estar a querer proteger demasiado a infância deles, se sou a única a achar um exagero isto tudo ou se de facto estamos (estão porque não fui eu que ditei estas regras) a fazer tudo bem e de acordo com o que as suas mini cabeças aguentam.

Quem estabelece estes limites? Quem faz caber o essencial da educação e da formação no espaço da escolaridade obrigatória? Quem é que entende na realidade não só as capacidades neurológicas deles mas também a necessidade de aprender o que vão na realidade usar. E a vida prática no meio disto tudo? As plantas, o ambiente, os animais, a cidadania, a entreajuda, isso tudo. Ainda cabe no programa?

Comentários

  1. Concordo consigo e vou já adiantando que vai ficar cada vez pior.
    Cada vez mais matéria e pior, sempre repetida todos os anos. Cada vez dão aos matérias mais cedo, mas como é sempre a correr, parece que precisam de repetir os programas todos os anos. Um horror.
    Não meu tempo, e devo ser mais ao menos da sua idade, não me lembro de nada assim.
    O que eu vejo agora, é que os pais precisam de estar sempre a ajudar, porque eles são muito miúdos sem qualquer maturidade para este excesso.

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