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Solidariedade feminina

O ano passado, em Março fui arrastada para um grupo de mães no Facebook, criado por alguém que eu só conhecia de vista. O intuito desse grupo era juntar mulheres que tinham tido filhos entre Janeiro e Março para que se pudessem ajudar, passar o tempo "das baixas" mais acompanhadas e falar.
Pareceu-me um bocado disparatado porque primeiro que tudo sou envergonhada por natureza e depois pensei que passaria bem obrigada sem ajuda de ninguém que não fossem os meus.
Éramos dez. A mais nova com 28 e a mais velha, por acaso eu, com 35. Tinha tudo para dar mal.
Todas com vidas absolutamente diferentes. Umas trabalham muito, outras trabalham q.b., outras em casa, outras por conta própria, outras(a), fora do país.
Ao princípio falávamos de filhos, claro. Não poderíamos falar de outra coisa porque metade de nós nunca sequer se tinha visto.
Todas estávamos a passar pelo mesmo. Segundo filho ou terceiro, logística nova, mudanças (mais ainda) do corpo, dinâmicas familiares, baby blues, amamentação, biberons, cansaço, rotinas...
Rapidamente o facebook tornou-se lento para o que precisávamos de dizer e criámos um grupo de Whatsapp (que para quem não sabe - pode ser que haja quem não saiba - é uma aplicação que permite trocar mensagens instantâneas entre duas ou mais pessoas).
Éramos rápidas a falar e atropelávamo-nos facilmente.
A nossa happy hour começou a ser à noite, quando os filhos estavam deitados, e era nessa altura que disparavam opiniões e assuntos. Bastava uma ida à cozinha buscar água para ter mais de 200 mensagens para ler.
Dos bebés, passámos para nós. E nós tínhamos tínhamos panos para mangas. Vezes dez. Primeiro os assuntos mais simples: o nosso corpo, o peso, as dietas, a alimentação. Depois a nossa vida, o nosso passado, família, história, casa. Depois nós. Nós mesmas.
E de repente, demos pelo grupinho sentado à mesma mesa, numa espécie de blind date a atropelarmo-nos à mesma e a falar sobre tudo e sobre nada. E depois disso, a irmos às festas de anos umas das outras, dos filhos, passarmos dias de férias juntas, ligarmo-nos só para falar, desabafar, rir. No fundo, ser amigas.
Passou um ano e o grupo continua, com uma diferença. O que nos une já não é tanto os filhos mas aquilo que nos une na realidade. Empatia.
Já discutimos, nos desentendemos, nos chateámos. Já fomos injustas umas com as outras e já pedimos desculpa. Já nos encontrámos todas em grupo e já fomos duas a duas ao cinema, almoçar, ao jardim. Já se criou uma empresa entre duas, já se mudou de emprego, já há mais uma gravidez, alguns dos bebés já estão na escola, outros em casa e já todos andam (menos o meu que é o mais novo e pesado), já todos falam.
Graças a este grupo fiz uma dieta e emagreci 10 quilos. Aprendi que existem sementes que se põem na comida, white noise, swaddle, alternativas às papas, conheci a granola, a parentalidade positiva, o boba, o bio. Aprendi coisas que não concordo, não gosto, não uso, não tenho, não faço, mas que gostei de conhecer. Graças a este grupo aprendi a dar mais valor às minhas amigas de sempre e que amo. Aprendi a ser mais compreensiva, mais mente aberta, mais disponível para os outros.
Aprendi que é possível duas coisas que achava tão difíceis: fazer novos amigos, fazer novos amigos mulheres.
A amizade entre mulheres não é fácil. Ou pode não ser fácil porque as mulheres são chatas, às vezes não ficam felizes por nós se conseguimos coisas boas, às vezes olham de lado e não nos querem bem. Não gostam se somos magras, se temos sucesso, se conseguimos gerir bem a vida, há até mulheres a quem irrita a felicidade.
Mas o que de mais mais importante aprendi ao longo deste ano é que devemos olhar para as outras mulheres como olhamos para nós mesmas porque há sempre, mas sempre alguma coisa em comum.
Obrigada miúdas.

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