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Ser o que eles esperam que seja

A imagem que tenho da minha mãe quando penso na minha infância é de uma mãe presente.
Segundo ela - tenho sérios problemas de memória - não era o género de mãe de brincar connosco no chão. Estendia umas coisas, dava-nos brinquedos e entretíamo-nos bem sozinhos. Tínhamos parque e era dessa maneira que tomava banho, arrumava a cozinha e se calhar respirava um bocadinho de nós.
Lembro-me de rir e de ser importante ter o quarto arrumado. Lembro-me que era preciso que a minha mãe mandasse um berro ou outro para que se mantivesse a ordem. 
Lembro-me que cozinhava bem - cozinha optimamente - mas que comíamos muitas vezes rolo de carne. E bananas que entravam lá em casa em caixas de madeira. E também línguas de perguntador. 
A minha mãe trabalhava muito. Ainda hoje. 
Lembro-me que às vezes chegava tarde e que fazia um esforço para no sofá, nos perguntar como tinha sido o dia, e adormecer à terceira palavra. Lembro-me de nos rirmos por isso.
Umas vezes ficávamos com a minha bisavó com quem vivemos, outras com empregada. E depois passámos a ficar sozinhos. Ou melhor, entre irmãos. 
A imagem que tenho da minha mãe não é de uma mãe ausente, mas de uma mãe que fez tudo para termos uma vida sem dificuldades. E mesmo quando as tivemos, nunca dei por elas. Nem me lembro de sentir que tive pouco tempo de mãe. 
Íamos de férias um mês inteiro e a minha mãe cozinhava na mesma, lavava a roupa na mesma, vestia-nos na mesma. 
Não sei se nos contava histórias, se nos dava beijos eternos e enormes abraços mas sei que nos adorava, nos defendia e fazia tudo por nós. 
Lembro-me de tomar o pequeno almoço com ela na rua, pedir uma empada (ainda comia carne) e um néctar e às vezes a caminho da escola mas não necessariamente na mesma manhã comer uma arrufada de que ainda hoje me lembro do sabor. 
Sei que a primeira vez que fui ao cinema foi com a minha mãe e que chorámos no "O meu primeiro beijo".
As mães de hoje vivem com um bloco de centenas de quilos nas costas e um bloco de notas para aprenderem a ser mães. Cheias de sentimento de culpa. 
As mães que trabalham chegam a casa com os filhos de banho tomado e querem chorar. As mães que não trabalham sentem que faltam à casa e que não contribuem para as contas. 
Seria bom que as mães descansassem. 
Seria bom que a sociedade adormecesse um dia e acordasse sem preconceitos, que não olhasse para quem trabalha muito porque tem que ser como alguém que não quer saber e para quem está em casa como uma preguiçosa de pés para o ar. 
Faz-se o que se pode e como se pode. 
Às vezes não apetece fazer legos. Pôr bandoletes ou dar chutos na bola ou jogar à apanhada. Podemos estar cansadas. Sem paciência.
Olho para a minha mãe cheia de orgulho. Não porque trabalhou muito mas porque foi a mãe que foi apesar disso. Ou para além disso. 
Seria bom que desaparecessem sentimentos de culpa, vergonhas, medos e inseguranças e que as mães respirassem fundo.
Que as que não trabalham soubessem que estar em casa também é poupar, estar presente, ir a médicos, ficar com eles em casa, ir às compras, às reuniões, vacinas, tratar da roupa, cozinhar, ir buscar à escola. 
Seria bom que as mães que trabalham soubessem que são um bom exemplo para os filhos. Que não há vida sem trabalho mesmo que isso nos irrite e que temos que trabalhar para viver e que o esforço é por eles. E que eles vêem isso. 
Mães que brincam no chão, sentadas a ver ao longe, que observam, que se deitam na areia, que correm mais do que eles, que os atiram ao ar, que preferem os puzzles, os desenhos, as histórias. As que levam ao cinema, aos museus e as que os levam a subir às árvores, a explorar a terra, a sujar as mãos. Que andam de bicicleta, skate, trotinete, que são boas a explicar matérias, que são péssimas a matemática e chutam para o pai. 
Seria bom que soubessemos que o que eles esperam de nós é sermos o melhor que conseguimos. E nem mais uma gota. 

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