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Quando nos vemos sozinhos

Amei este filho durante 556 dias seguidos. Mais de um ano e meio completamente dedicada e focada nele.
Durante todo este tempo, ele e eu, tudo fizemos juntos.
A mesma rotina e uma coisa diferente todos os dias.
Vi de perto o que foi fazendo de novo, o que foi aprendendo,  decorando e acompanhei todas as conquistas, muitas provavelmente festejei sozinha por serem importantes só para mim (e para o pai claro).
Dei-lhe beijos, colo quando me deixou, mimo, chorei com ele, brinquei muito,  conversei e ensinei-lhe tudo aquilo que pude.
Habituei-me a tê-lo. Como a ela, quando esteve comigo em casa. Colados a mim numa vida que jamais trocaria. Num privilégio absolutamente esgotante que me tornou numa pessoa melhor, mais paciente e mais agradecida.
Agora ele foi e eu fiquei. Eles estão lá e eu estou cá.
Ontem levei-os pela primeira vez. Aos dois. No horário (quase) completo da escola.  E é certo que até às 15:30 o tempo passa muito rapidamente mas vi-me sozinha, sem nenhum deles.
Nem sei se o dia foi aproveitado como deve ser mas respirei fundo.
Cheia de saudades deles mas respirei.
Os filhos dão-nos uma certa segurança que se pode tornar numa muleta e numa distracção e numa ponte para nos desligarmos, para nos esquecermos, para nos deixarmos levar por eles e pelos dias. Uma falsa confiança.
A sua ausência dá-nos prisma. Possibilidade de ponderar, de ver ao longe e em grande plano. Também nos dá distância para os conhecermos com os outros e aos olhos dos outros. Também nos dá tempo para organizar por dentro e por fora e estar mais  disponíveis.
(Quando deixei de fumar não sabia o que fazer com as mãos.... é assim que me sinto, mas do coração).
Eles longe, não me traz mais felicidade ou alívio ou pulos de alegria e finalmentes. Traz-me umas saudades precisas e uma oportunidade de me voltar a ver. Aos meus planos e a mim. Sem ser a mãe deles.
E também voltar a saber o que fazer com as mãos.

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