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Viver para além deles

A certa altura, para algumas mães onde me incluo, é muito difícil separar a mãe da mulher e a mulher da mãe... Vai ficando maior o espaço entre as duas à medida que os filhos crescem e se calçam sozinhos e vão a pé para a escola e dormem em casa dos amigos e tiram a carta e vivem fora.... Vai ficando mais fácil nao estarem dependentes de nós e nós deles. Mas há uma grande parte da vida em que parece que tudo acontece e ao mesmo tempo é um espaço vago e confuso em que eles não imaginam a vida sem nós nem nós sem eles. É um tempo tão intenso que de repente eles estão a entrar no primeiro ano e nem demos conta e até chegar esse dia nasceram dentes, as primeiras palavras, primeiros passos, primeiras doenças, primeiros sustos, noites em branco, milhares de banhos e jantares e passeios e remédios. Tudo aconteceu enquanto fechamos e abrimos os olhos.

Há coisas que conseguimos levar connosco pelo caminho e outras que deixamos cair... Sem darmos por isso, às vezes. 

Coisas simples e sem importância real como arranjar as unhas e coisas grandes. O casamento, os amigos, a religião. Coisas nossas, os nossos hobbies, os nossos sonhos, as nossas vontades. 

Depois vamos tentando apanhar na esperança que dê, que ainda dê para levar aquilo que foi ficando, as pequenas coisas, as grandes coisas. 

Os filhos não nos tiram nada, dão-nos tudo aquilo que quisermos e estivermos dispostos a receber. Mas é difícil não abdicar disto ou daquilo em troca. E há um esforço em manter as paredes de uma casa adulta sem pinturas artísticas e os jantares de amigos e o trabalho e o jogo de futebol do escritório e o fim de semana fora, o cinema, o café com a melhor amiga que não chega para a conversa chegar mesmo onde nós gostávamos e estarmos sozinhos com os nossos pais e connosco mesmos. Há um esforço para ler um livro inteiro e ver uma série sem "ir lá 3 vezes", meditar e comer bem e ser individual e casal para além de tudo. Há um esforço para viver para além deles. 

Há quem consiga separar as duas vidas e manter uma completamente afastada e separada da outra, há quem se envolva tanto que se perde de si mesmo e há quem encontre aquele meio termo perfeito - a que eu gostava de chegar um dia - e consegue levar um saco em cada mão sem grande esforço. Num equilíbrio perfeito.  

Mas ao final do dia, seja a mãe que for, seja o pai que for, um filho, tenha a idade que tiver, ocupa sempre o nosso pensamento. 

Comentários

  1. Eu sou assim tbm, do primeiro filho deixei mesmo de tomar conta de mim era tudo ele e relacionado com ele. Quando dei conta nem sabia comprar roupa para mim. Mas depois vamos voltando a nós e a sentirmo— nos mulheres além de mães ! Mas sem dúvida que temos de arranjar um tempinho e um grande esforço para isso.
    Um beijinho

    ResponderEliminar
  2. Tão verdade... Tenho três príncipes lindos que são a minha vida. Por vezes sim... Sinto que deixo de ser eu própria, que abdico de mim em prol deles. Fins de semana, jantares com amigos que não têm filhos (há coisas que só se percebem e que podem ser partilhadas com quem já é pai/mãe), idas ao cinema, concertos, viagens. Abdiquei em parte da minha vida profissional em prol de tentar agarrar o tempo que foge sem avisar e ter assim mais tempo para eles. Por vezes dou por mim a pensar em tudo isto mas depois de um abraço apertado e de um doce mamã percebo que tudo vale a pena por eles. Gostava se conseguir levar um saco em cada mão sem esforço... Mas não consigo. ❤️��

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